{ letras }

1 – TLANK! (poema)
Manoel Filó

2 - AQUI (ou Memórias do Cárcere)
José Paes de Lira / Clayton Barros / Emerson Calado / Nego Henrique / Rafa Almeida

Vou
vou pregar na parede
um pedaço de céu
que você me mandou
Vou buscar
outra constelação
entre a noite que vai
e o dia que vem
Eu canto, aqui, eu olho daqui, eu ando
Aqui, eu vivo
Canto, aqui, eu grito
Aqui, eu sonho
Aqui, eu morro
Morro
Vou
vou riscar no meu braço
um pedaço de mar
que você me deixou
E criar
outra recordação
do primeiro lugar
que acordei pra te ver.
Eu canto, aqui, eu olho daqui, eu ando.
Aqui, eu vivo
Canto, aqui, eu grito
Aqui, eu sonho
Aqui, eu morro
Morro

3 – O SINAL FICOU VERDE (ou Além do Bem e do Mal)
José Paes de Lira / Clayton Barros / Emerson Calado / Nego Henrique / Rafa Almeida

Eu. Entrei com armas em teu território
plantei antenas no teu coração
andei pesado
na tua sala
tal como árvore
ou como torre.
E abrindo a boca ela devorou
e abrindo os braços fez a dor passar
primeiros pássaros
primeira roda
e o pensamento de querer voar

Além do bem, além do mal
Além do bem, além do mal

Olhai o sinal ficou verde
Olhai o sinal ficou verde
Olhai o sinal ficou verde

Mais. Deixando marcas
fazendo som
aqui se planta pra colher depois
os mercadores vão pagar pra ver
e aquela onda vai querer passar.
É quando muda a cor da nossa casa
é quando voam os automóveis
pra outro canto
um ponto novo
com tudo aquilo
que se refaz

4 - SOBRE AS FOLHAS (ou O Barão nas Arvores)
José Paes de Lira / Clayton Barros

Contarei a história do Barão
Que comia na mesa com seu pai
Era herdeiro primeiro dos currais
Mas gritou no jantar, não quero nada
Nesse dia subiu num grande galho
Nunca mais o barão pisou na terra

Passou anos e anos na floresta
Andou léguas e léguas sobre as folhas
Construiu sua casa feito ninho
Beijou sua mulher perto das nuvens
Um concreto bordado nas alturas
Ou manobras de amor no precipício

quando amanheceu entre dois prédios
de pastilhas brancas e tantos andares,
um guindaste bem mais distante,
a luz, a sombra, a luz vermelha da roupa da aurora.
soube nessa madrugada
do homem que não quis os minérios do pai
que não quis os segredos farpados da mãe
subiu numa planta, no alto da pedra, bem perto daqui
e ficou por lá

5 – PRETA
José Paes de Lira

preta
leva teu xale azul
de seda branca e azul
que vai chover

e a chuva nunca para de cantar
a chuva nunca para de descer

preta
leva teu xale azul
de seda branca e azul
que vai chover

a chuva nunca para de cantar
a chuva nunca para de descer

e a chuva
vem pequena e grandiosa
acalenta
ou revira o nosso lar

e a chuva
com o seu sonho de água
vem acesa
pra lavar o que passou

a chuva nunca para de cantar
a chuva nunca para de descer

 

6 – PEDRA E BALA (ou Os Sertões)
José Paes de Lira / Bnegão / Clayton Barros

Juntem as forças pra seguir nessa jornada
Busquem as forças pra lutar na sua própria batalha
A poeira subiu de ambos os lados
Arames farpados olhos e punhos fechados cerrados
A face marcada pela mesma vida seca como a terra rachada
Uma sombra densa e pesada eclipsando o que há de melhor na sua alma
O verdadeiro terror mais sufocante que o calor
Essa é a sua jaula
Os desertos se encontram de várias formas
Seja no espírito no solo ou na mente através de idéias tortas
Que produzem gente morta em escala industrial

Guerra pela terra
A pedra contra o tanque
Guerra altera a terra nada será como antes

Na inversão dos papéis do pequeno Davi contra Golias o gigante
Como os barões das mega corporações
Gigante como o coronelado dos grandes e pequenos sertões
Como vários e vários e vários Ubiratans
Com seus sanguinários batalhões
Que na sua prepotência e ignorância bélica
Não conseguirão perceber a força e a chegada certeira daquela pedra

Juntem as forças pra seguir nessa jornada
Busquem as forças pra lutar na sua própria batalha

Um beijo seco no portão do teu ouvido
Quebrando cercas pra chegar na nossa mira
A pedra curte a bala corre e voa
A pedra fura bala transpassa
A bala é quente e a pedra é pura como um gole de cachaça
Velho como teu projeto louco
Forte como quem chora de medo

Guerra pela terra
A pedra contra o tanque
Guerra altera a terra nada será como antes

Escuto em alto-falantes aquele som de cimento dessa muralha sem fim
E o desejo a pedra e a bala
A santa paz fora do jogo
Pois o que fala alto é pedra e bala
Naquela praça onde as crianças brincam
Naquele prédio perto das estrelas
Naquele circo no qual quando chove não há espetáculo.

 

7 – LOUCO DE DEUS (ou Perto de Você)
José Paes de Lira / Clayton Barros

Perto de você
Dentro da tua história
Eu carrego as paisagens
E as miragens
do além
Digo que quebro as telhas
Da nossa grande construção
Pra dormir na amplidão

O sol rodando vermelho
O sol pregado no azul
O sol rodando no céu
O sol suspenso no ar

Eu sou um louco de deus
Eu sou um servo dos loucos de deus
No fundo dos olhos
Na alma do corpo
No fogo Fogo

Na alma do corpo, no fundo dos olhos
No fogo Fogo

8 – ELA DISSE ASSIM (ou A Teus Pés)
José Paes de Lira / Clayton Barros / Emerson Calado / Nego Henrique / Rafa Almeida

Ela disse assim
É porque é
É porque é
Não há desespero em vão

Se ela quer voar
É porque tem asas
É porque tem asas
Não não não

Quando a gente voa
Distante e só
Tão distante e só
O sol não vem
E a luz que cai
Nunca mais voltou
Nunca mais voltou
Não não não

9 – TRANSFIGURAÇÃO
José Paes de Lira / Clayton Barros / Emerson Calado / Nego Henrique

A paixão é um mar
Parabólica
Dilatada
Estrada que dói
Encanto de flor
Labirinto
Espera de redes
Parece toda raiz
Só raiz
Quando não canta o trovão
Transfiguração

Com a sua pele sagrada
A sua boca sagrada
E a sua vida no chão

Volta que esse mundo só precisa de você
Volta outro homem nunca assim vai te chamar
Não fique aí enterrada
Não fique aí enterrada
Vem para a rua

10 – O LAMENTO DAS ÁGUAS SAGRADAS
Emerson Calado / Nego Henrique / Rafa Almeida

11 – JOANA DO ARCO (ou Agitprop)
José Paes de Lira / Clayton Barros / Emerson Calado / Nego Henrique / Rafa Almeida

Venha me buscar
Joana de Fogo
Com seu arco e flecha
Paz Ira
Nesses latifúndios
Nessas coordenadas
Flores que arrancamos
Vão nascer de novo

Venha levantar
Pétala caída
Com seu alimento
Paz Ira
Nesses movimentos
Nessas caminhadas
Força que ofertamos
Vem salvar teu povo

Venha me buscar
Pétala caída
Com seu movimento
Paz Ira
Nesses latifúndios
Nessas coordenadas
Força que arrancamos
Vem salvar teu povo

12 – CANTO DOS EMIGRANTES (poema)
Alberto da Cunha Melo

13 – MORTE E VIDA STANLEY
José Paes de Lira

Na madrugada de vento seco
No clarão da grande lua prateada
No recôncavo do sol
Na montanha mais longe do mar
Numa serra talhada espinho fechado coivara caieira vereda
Distancia da rua
Mato cerca pedra fogo faca lenha
Cerca bote bala bote bala bote senha
Tabuleiro tabuleiro em pó
Na pedra dos gaviões
Uma mulher deitada
O nome é Maria
A dor conduzindo o filho terceiro
Nas garras do mundo sem guia
Vai nascer outro homem
Ouviram
Vai nascer outro homem
Outro homem

O seu nome é Stanley
Mais um filho da pedra dos gaviões
Da montanha
Do recônvavo do sol
E eu aqui vou cantar
Sua morte sua vida
Seu retrato sem cor
Seu recado sem voz

Morte e vida Stanley
Morte e vida Stanley
Morte e vida Stanley
Morte e vida

Outro homem

O seu nome é Stanley
Mais um filho das pedras dos gaviões
Mais um homem pra trabalhar
Na cidade sem sol
E eu aqui vou cantar
Sua morte sua vida
Seu retrato sem cor
Seu recado sem voz

14 – NA ESTRADA (ou Quando Encontrei Dean Pela Primeira Vez)
José Paes de Lira / Rafa Almeida / Clayton Barros

Venho do morro venho da rua
Dos labirintos da terceira guerra
Venho do morro venho da rua
Do mundo novo de São Saruê

E o tempo faz estradas
E o tempo faz estradas
Pra se chegar ao fim
Pra se chegar ao fim
Nossa vida é feita assim

Na estrada

Cosmologia, livro das horas
Os argonautas, a grande viagem, Noé
Vou por aqui, vou por ali
O infinito é tão longe

Venho do morro, venho da rua
Dos labirintos da terceira guerra
Estrada de pedra, estrada de ferro
Os astronautas, a retirada

15 - ACAMPAMENTO
Clayton Barros